sábado, 9 de julho de 2016

Cinco anos de Tempos Safados: post comemorativo

No mês passado Tempos Safados completou cinco anos. Depois de todo este tempo e dos perrengues pelos quais passou e ainda continuar vivo, considerei que seria interessante escrever um post autorreferente para comemorar a data. Então este post vai contar sobre bastidores da trajetória do blog, coisas que inclusive nunca vieram a público.

<< O início >>

Foi exatamente no dia 03 de junho de 2011 que resolvi abrir este espaço. Na época eu lecionava história na escola da Penitenciária Prof. Pimenta da Veiga e surgiu uma discussão de âmbito nacional a respeito de um livro didático que utilizava expressões coloquiais para ensinar modos corretos de se expressar o português conforme o contexto, escrito ou falado. O debate chegou ao ambiente de trabalho e círculo de amizades, dividindo opiniões. Como para mim não existia ainda Facebook, escrevi um “textão” sobre o assunto e colei na porta do meu armário da escola. Depois, seguindo inspiração do Diego Leão, um amigo com quem dividia aluguel na época e que possuía um blog muito interessante de contos e poesia, criei o Tempos Safados.

A proposta de abrangência do blog em seus primórdios era muito modesta. Durante muito tempo meus (únicos?) interlocutores eram colegas mais próximos. A maioria cursava graduação ou pós-graduação em história na Federal de Uberlândia, outros tinham transferido a pouco tempo ou faziam outros cursos. Os nomes de alguns inclusive aparecem nos primeiros posts. Era a partir de discussões iniciais presenciais ou virtuais com eles que nasciam os posts. Depois dos seis meses iniciais, fazendo no máximo um post por mês porque eu trabalhava muito, o blog começou a ter mais visitas e foi tomando uma forma um pouco diferente daquela que o originou. Pois por mais que houvesse embasamento nos posts em formato de artigo de opinião, eles eram bem direcionados.

<< O segundo limiar >>

Com o aumento dos acessos passei a escrever textos para o público geral. Criei uma linha editorial. Fiz uma apresentação demonstrando objetivos e perspectivas, explicando até a escolha do título do blog que ainda hoje causa estranheza (inclusive em mim). Esta apresentação, meio tosca, é a mesma até hoje (por puro descaso, confesso). A ideia deste segundo início e ainda vigente, era, além de problematizar questões (coisa que já tentava fazer), apresentar perspectivas distintas do senso comum que as leituras e discussões do curso haviam me ajudado a construir. Se fosse para reforçar opiniões e visões já correntes não faria sentido criar um blog, bastaria entrar na caixa de comentários do G1. O intuito, por mais ingênuo que seja, tem uma conotação iluminista. Mas também libertária. O que quer dizer que, sim, quero informar ao leitor determinadas concepções de olhar sobre mundo e de construir conhecimento. Contudo não gostaria que ele tomasse isso como uma lição final, nem tampouco a aceitasse completamente. O blog pode até ser uma mamãe-águia que traz comida de longe para seu filhote, mas ela também quer que ele voe e encontre seu próprio alimento, então, ela o empurra desfiladeiro abaixo como se dissesse: “Voe, disgrama ruim! Ou morra”. Nunca lidei bem com o fato do conhecimento produzido nas universidades ficar restrito a elas ou chegar, quando muito, à escola. E apesar de valorizar bastante este conhecimento, achá-lo importante e essencial para a vida, em muitos posts utilizo as “ferramentas” que aprendi com o próprio saber acadêmico para criticá-lo, demonstrando suas fragilidades e limites. Quer dizer, iluminismo: sim. Crítica ao “esclarecimento”: também. Mas para isso o leitor precisa ir atrás de outras referências, precisa ser curioso, no mínimo, investigando as obras indicadas que deixo.

<< Eu, leitor de mim >>

Um blog não é um diário secreto. É óbvio que escrevemos para sermos lidos. Escrevemos “para os outros”. Mas olha. Esse processo de escrita, assim como o que Foucault chama de escrita de si (que é uma coisa totalmente distinta, diga-se), serve muito mais para quem escreve. O blog me ajudou bastante a estudar e a sistematizar a informação apreendida. Passei a recomendar a prática a todos os amigos. Ajudou-me a escrever melhor e mais rápido, a tentar ser mais claro e conciso, a colocar no “papel” de maneira organizada, coesa e coerente sistemas de pensamento complexos. Como qualquer exercício a escrita é um treino. E se aprimora escrevendo. Nesse sentido é perceptível a transformação que meus textos sofreram desde que iniciei o blog. Dos primeiros tenho inclusive até certa vergonha. Em vários eu fiz retoques na redação, embora mantendo a ideia para lembrar-me que já pensei de tal forma. Daqui uns cinco ou dez anos espero olhar para os textos de hoje e ter a mesma impressão. Triste é aquele que não muda. Que não percebe que melhorou ou, por arrogância ou preguiça, não quer melhorar.

<< Para mí, pero no mucho >>

Até por conta deste aprimoramento o blog foi ganhando algum rigor acadêmico, tornando-se mais sério. O relativo sucesso entre os colegas que liam o blog e me davam um feedback positivo (incrivelmente de diferentes perspectivas teóricas e/ou políticas) foi criando automaticamente uma responsabilidade. Não me considero perfeccionista, mas em geral gosto de fazer as coisas com algum esmero. Isto é, fazer o melhor que posso dentro de determinadas circunstâncias. E independentemente do retorno fico satisfeito quando consigo. Isso chegou ao ponto do conteúdo de algumas postagens servirem quase exclusivamente para os outros e baterem recordes de acessos. É o caso do resumo de Vigiar e punir. Eu já havia lido o livro. Alguns capítulos mais de uma vez, inclusive. Porém não havia feito nenhuma resenha ou fichamento. Foi quando o professor e amigo Deivy Carneiro me convidou para apresentar uma introdução do pensamento de Michel Foucault para uma turma de graduação. O professor discutiria Vigiar e punir em perspectiva paralela com O processo civilizador de Norbert Elias a questão da disciplina, do crime e da punição na modernidade (pelo que lembro). Foi então que resumi a obra e depois decidi subir no blog devido à falta de posts na época.

Muito por conta da responsabilidade imposta de mim sobre mim mesmo (“vou apresentar coisas novas/desconhecidas e interessantes ou postar resenhas e resumos úteis e bem escritos”, era o que meu superego dizia), mas também por conta do tempo escasso devido ao excesso de trabalho (seja nas escolas, seja correndo para escrever a dissertação de mestrado dentro do prazo), as postagens foram diminuindo cada vez mais e a vontade de parar o blog idem. Por vezes pensei em tornar o blog “mais comercial”, alterando o título e fazendo mudanças estruturais, como parcerias com editoras. Cheguei a comprar um domínio (brevestempos.com) que jamais utilizei. Isso tudo nunca vingou. Porque no fundo sou teimoso e conservador em alguns princípios. A exigência da produtividade para parcerias com editoras ou para alavancar as visualizações do blog é algo, na minha cabeça, contra a proposta de sua linha editorial. Não, não. Eu não vou criar um post com uma imagem descolada de um autor da moda (Foucault? Nietzsche?) com um mini-texto avassalador de sete linhas prometendo o ingresso para a saída da caverna e que, para isto, basta clicar num link cujo desdobramento se dá em mais dois parágrafos e que logo terminará com a indicação de outro link de mesmo naipe. Não faço porque não acho honesto com o leitor. Pode até passar uma sensação de conhecimento, mas olha, não é não, é só outro tijolo no muro do consumismo. É possível utilizar outras estratégias para atrair a atenção do leitor para o texto. Diletantismo? Tudo bem. Mas que seja sério. Pois de picaretas estamos cheios. Por isso me considero muito mais um ativista do esclarecimento, da educação, do “não deixe que a universidade atrapalhe seus estudos” (como repetia sempre um professor com quem aprendi muito e ao qual sou grato, apesar dos pesares) do que um braço do diletantismo cult.

<< O pagamento >>

Talvez por conta do blog ter começado sem grandes pretensões ele segue mais ou menos assim até esta data. É um hobby. Faço por diversão. Nunca recebi um único centavo para escrever. Mas quem sabe um dia, depois de seu fim, reúna e reconstrua alguns textos e publique em formato de livro (o que não quer dizer que vou lucrar com tal. Livro no Brasil só dá dinheiro para editora e livraria e Augusto Cury). Apesar disso, é preciso dizer que embora não tenha entrado dinheiro na minha conta, o retorno sempre existe. Vem em forma de incentivos que recebi durante todo este tempo, principalmente, de amigos e colegas. Por mais divertido que seja escrever é bem mais prazeroso quando seu trabalho é reconhecido. A gente vive em sociedade, então é inevitável que os elogios e as críticas exerçam algum efeito sobre seu ânimo e conduta. Fico extremamente contente quando algum leitor aparece dizendo que tal texto lhe ajudou de alguma maneira. Esse pagamento é o que mantém a bagaça na ativa.

Conheci algumas pessoas através do blog. De algumas me tornei amigo virtual: Aline, Silvio, Vivian, Ivana e Bruno (que aliás sumiu), respectivamente do Paraná, do Rio, do Rio também, do Pará, de Sampa, são alguns destes que estiveram ou estão na lista de amigos do Facebook e com quem aprendo e interajo bem. Gente que provavelmente não conheceria de outra forma. Uns vem e vão. Uns enviaram textos para meu e-mail com o intuito de continuar discussões iniciadas no blog. Umas fluíram, outras não. E o melhor elogio veio de um colega inteligente e estudioso, vejam só, de ideias conservadoras e com quem não tenho mais contato (são as voltas que a vida dá), disse mais ou menos algo como “é o melhor blog de história que existia no Brasil” (exagero, óbvio) e que eu “escrevia tudo direitinho” (ele queria dizer que eu não deturpava os autores, acho). O interessante é que se este colega elogiasse minhas concepções políticas eu ia desconfiar muito de mim mesmo, não ia ficar contente, achando que estivesse agindo errado. E vieram outros incentivos tão bacanas e motivadores quanto. De amigos, de professores, de alunos... e de estranhos. Agradeço o obrigado de todos.

<< Hello, strange >>

Além de elogios sempre tem o espanto com o nome do blog. Um professor disse certa vez que não poderia ter nome melhor. Acho que ele se referia às profanações à academia que faço, as “sacanagens”. A verdade é que em muitos lugares o acesso ao blog nem é possível porque bloqueia pornografia. E sempre que olho na página de administrador aparecem termos pornográficos nas palavras que trouxeram ao meu blog. Imagino que já passei raiva em muita gente ao longo destes cinco anos. Mas o nome também gera situações engraçadas como estas dez que coletei no Twitter:


01. Pois é, miga. Nunca julgue um livro pela capa.



02. Cavalo dado não se olha os dentes, não é mesmo, brou? Esse mundo é a hipermodernidade.



03. Há Certeau, mizeravi!



04. E quem falou que teoria da história não pode ser excitante?



05. “Vai ter sim! E se reclamar vai ter duas vezes”, diga ao seu professor.



06. Aprecie com moderação, amigo.



07. Outra época divertida do blog foi quando adicionei uma ferramenta em que se podia ver de onde vinham os acessos. Por exemplo, a cidade, o tipo de navegador, o post, a duração da visualização, a operadora de internet e etc. Foi então que descobri acessos impensáveis como alguns vindo do Supremo Tribunal Federal (sim, o STF) de Brasília. E eles estavam lendo Vigiar & Punir. Bom, se eles podem, né, Marquinhos, então você também.



08. Provavelmente este é o relato mais divertido e também preocupante:



Dias depois:



Professores, cobrem resenhas dessa galera! Hahahahaha...

09. Agora a maior surpresa de todas do universo. A NASA (Nasa Glenn Research Center) lendo textos do blog. E logo um que falava sobre o apoio dos Estados Unidos ao Golpe Militar de 1964 no Brasil. Fiquei preocupado em me mandarem para Guantánamo. Felizmente não era a CIA.



10. É o que sempre digo:



Depois de cinco anos é possível que o blog feche as portas de vez. Óbvio que os textos continuarão online, o domínio do blogger é público e grátis. Um segredinho: a ideia era chegar aos 100 posts em junho (estou no 95) e encerrar com algo parecido com isso aqui, mas não consegui e tenho uma lista de temas para posts mais velha do que um tricerátops. Então o blog deve seguir até o final do ano, quando pensarei numa mudança. Vou continuar escrevendo mas noutro formato e em outro domínio. Não sei qual. Ou talvez mude para um canal no YouTube para me adaptar à nova realidade de público. Hoje o Facebook ajuda a divulgar as publicações mas também a gastar nosso precioso tempo procrastinando ou nele escrevendo laudas e laudas, que serão perdidas em dois dias ou menos. É inegável o esfacelamento que isso promoveu nos blogs.

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E você, que está lendo este texto, tem algum comentário a fazer? Há algo inusitado sobre o blog para contar? Conheceu Tempos Safados através de algum texto em específico? Algum elogio ou crítica? Comente à vontade aqui embaixo. E muito obrigado por tudo nestes cinco anos. 
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sábado, 2 de julho de 2016

Como usar o terrorismo para manter uma ditadura: Assad e a Síria


“Se Gandhi passasse três meses na Síria, ele seria um extremista jihadi”.
(Muhammad Habash)


Amjad Rasmi é um premiado cartunista jordaniano que trabalha para o periódico árabe Asharq al-Awsat cuja matriz localiza-se em Londres. Suas charges são geralmente sátiras a elementos da hipermodernidade, como as redes sociais, e também sobre questões políticas relacionadas ao Oriente Médio. Meses atrás ele publicou o cartum postado aqui ao lado do texto, fazendo uma homenagem (e uma paródia) à obra “Saturno devorando um filho”, pintada por Francisco de Goya no início do século 19. O trabalho prefigura uma crítica ao regime do ditador sírio Bashar al-Assad no contexto da guerra civil que se desenrola na região desde 2011, quando eclodiu a chamada “Primavera Árabe”. Assim que bati o olho me lembrei do livro que li ano passado a respeito do Estado Islâmico e sobre o qual escrevi no post anterior. Isso porque uma das teses principais deste livro é que o terrorismo na Síria, inclusive a atuação decisiva e brutal do Estado Islâmico na guerra, bem como o acirramento do sectarismo étnico-religioso, tem como um de seus principais responsáveis o governo de al-Assad. Segundo os jornalistas Hassan Hassan e Michael Weiss, o ditador sírio soltou deliberadamente inúmeros prisioneiros perigosos pouco depois do início das revoltas contra sua ditadura. Seu intuito teria sido o de chamar atenção e conquistar a ajuda das autoridades internacionais para a sustentação do governo, tendo em vista que o terrorismo agora estaria misturado a inúmeros grupos insurgentes não-terroristas, como o Exército Livre da Síria e o YPG (Unidades de Defesa do Povo) – o primeiro formado por ex-combatentes do Estado e o último composto por uma parcela significativa de mulheres curdas. Isto é, trata-se nada mais do que uma estratégia de Estado contra uma deposição como houve com outros ditadores recentes no mundo árabe.

Na mitologia greco-romana, Saturno (ou Cronos) é o deus-titã que devora seus filhos assim que nascem. A prática de Saturno vem do medo da realização de uma profecia feita logo após ele próprio ter matado e deposto seu pai, um deus autoritário (Céu, Urano) que, por sua vez, enterrava seus filhos no ventre da esposa (Gaia, Terra) para que eles não viessem à luz. Ou seja, trata-se de uma mitologia cíclica sobre deposições e substituições (Cf. GRIMAL, 1982). Mas não, não é o caso de Bashar al-Assad. Ele não teve que depor nem tampouco matar o pai. Nem física nem simbolicamente. De semelhança com a mitologia eles só têm o autoritarismo. Hafez al-Assad foi um general das Forças Armadas e, após um golpe de Estado, governou a Síria de 1971 até 2000, quando morreu de infarto. O médico oftalmologista Bashar al-Assad o sucedeu no governo, onde está até hoje. Pai e filho são do Partido Baath. Cercado por teocracias, o partido pretende-se secular e foi criado sob influência do socialismo de meados do século 20 e defendia a união de todos os povos árabes sob um único Estado, o pan-arabismo. Além disso a família Assad é alauita, isto é, pertencem ao grupo étnico-religioso dentro do xiismo islâmico que, apesar de compor apenas 13% da população na Síria, detém a liderança política a mais de quarenta anos, como se pode ver.

Tudo ia muito bem, tudo ia muito bom, pensava Assad mesmo após estourar as revoltas no norte da África e adjacências – primeiro na Tunísia, depois Argélia, Jordânia, Egito e Iêmen. Ele deu uma entrevista em janeiro de 2011 sem demonstrar preocupação de uma revolução atingir seu domínio. Foi então que sírios começaram a se manifestar em apoio às insurgências fora de seu país mas ali no meio havia um cartaz indicando a esfera doméstica, “o povo sírio não será humilhado”, dizia. E tudo entrou em combustão quando prenderam um grupo de garotos que fazia protesto em sua escola com pichações pró-democracia, uma diretamente dirigida ao médico-presidente sírio na qual se podia ler: “É sua vez, Doutor!”. A situação piorou quando os pais dos garotos reivindicaram a soltura dizendo “estes são nossos únicos filhos”, ao que foram respondidos por um general, primo de Assad, “pois tragam aqui suas mulheres que faremos outros filhos nelas”. Não ficou só na provocação. De fato, órgãos internacionais registraram inúmeros estupros e gravidezes indesejadas resultantes da violência de soldados de Assad {clique aqui para ler a citação}. Daí em diante o protesto se espalhou, seguido por repressão do Estado com prisões, torturas, choques, estupros e execuções. Mais de 150 mil foram presos. Mais de 200 mil morreram desde então, inclusive por vias de armas químicas. Com medo de ser derrubado, Assad, assim como Saturno, passou a devorar seus próprios filhos: o seu povo.

Contudo, o terrorismo de Assad, de acordo com o que escrevem Hassan e Weiss, não é feito apenas diretamente pelas mãos de seus soldados. Há também, como mencionei no início do post, um estratagema cruel. O ditador usaria uma tática segundo à qual você deve prever um incêndio em sua casa e logo depois queimá-la para acertar a previsão. Não à toa os combatentes e apoiadores do presidente utilizem a máxima “Assad, ou queimamos o país”. Pois é bem isso que ocorre. Além da campanha de fome imposta, provocada quando o exército estatal sitia uma cidade, há outros mecanismos de morte em funcionamento.

Mesmo o Partido Baath promovendo em tese um governo secular e apesar da maioria numérica de sunitas estar representada no governo (a esposa de Assad é sunita, bem como alguns de seus generais e ministros), existe alguns fatores complexos no contexto de guerra civil e envolvimento internacional. Há a provocação a sunitas para que estes cometam atos extremos, assim, afastando-os dos demais (alauitas-xiitas e cristãos) e provocando a preocupação da comunidade internacional sobre um possível extermínio das minorias no país. Deste modo o sectarismo da guerra é tanto fruto do domínio de uma seita minoritária sobre uma maioria rebelde, como da disputa muçulmana sobre a linhagem do Profeta (mais de 70% da população é sunita). Este jogo precisa ser alimentado como estratégia de poder. Desde que estourou a guerra civil, o governo começou a pagar bandidos conhecidos como Shabiha (em sua maioria alauitas) para disseminar o crime e o terror. As Nações Unidas comprovaram o esquema. Os Shabiha durante a revolução entravam nas casas cometendo diversas atrocidades sem serem importunados pela polícia, enquanto o governo se dizia sem envolvimento. Devido a essa série de coisas os próprios aliados e combatentes de Assad tem o abandonado, se integrando a forças insurgentes como o Exército Livre da Síria.

Neste contexto, de acordo com Hassan e Weiss, o Irã desempenha uma função semelhante à dos Estados Unidos no Iraque, fazer ocupação militar e manter a união do exército nacional sírio. Alianças e financiamentos com grupos terroristas têm sido prática comum do governo assadista para se manter no domínio. As Forças Quds e o Hezbollah libanês, por exemplo, teriam sido responsáveis por treinar exércitos para combater os rebeldes e recuperar territórios perdidos, devido ao enfraquecimento do exército nacional.

Diante de pressões por reformas em 2011, Assad promoveu anistia para alguns presos políticos. Mas estes foram escolhidos a dedo para alimentarem o caos da situação. A maioria é composta por salafistas-jihadistas que, logo após saírem da prisão, foram compor as fileiras de al-Baghdadi no Estado Islâmico. Em janeiro de 2014, o Major-general Fayez Dwairi, um ex-oficial de inteligência militar sírio, afirmou ao jornal baseado em Abu-Dhabi, o National:

“ – Muitas das pessoas que estabeleceram o Jabhat Al Nusra foram capturadas pelo regime em 2008 e estavam na prisão. Quando a revolução começou, eles foram soltos seguindo o conselho de oficiais da inteligência síria, que disseram a Assad: ‘eles farão um bom trabalho para nós. Há muitas desvantagens ao deixá-los partir, mas há mais vantagens, pois convenceremos o mundo que estamos enfrentando o terrorismo islâmico’”. Outro ex-soldado, que trabalhou doze anos no próprio Diretório de Inteligência Militar da Síria, disse algo no mesmo sentido:

“ – O regime não apenas abriu a porta das prisões e deixou os extremistas saírem, ele facilitou o seu trabalho, em sua criação de brigadas armadas – disse o oficial de inteligência, um alauita que havia desertado de sua unidade na região norte da Síria no verão de 2011, ao National. – Isto não é algo de que ouvi rumores a respeito, na realidade ouvi as ordens, eu vi isto acontecendo. Essas ordens vinham do quartel general [da Inteligência Militar] em Damasco. O regime também disponibilizou uma abundância de armas para estes extremistas em Idlib e Deraa, acrescentou o oficial” (WEISS; HASSAN, 2015, p. 140).

Saturno de Goya
Segundo a mitologia, depois de devorar seus cinco primeiros filhos, Saturno é deposto pelo sexto, Júpiter (Zeus para os gregos). Mas ele recebe ajuda para tal tarefa. É sua mãe Cíbele (Réia) que, cansada de ver seus filhos mortos, ludibria o marido, fazendo-o engolir uma pedra no lugar do corpo do recém-nascido. Já crescido e com ajuda de seus irmãos, regurgitados após Saturno tomar um veneno, Júpiter luta contra seu pai e contra seus aliados titãs, vencendo-os e se tornando o deus mais importante do Olimpo. O mito de Saturno, cujo nome grego é Cronos, se confunde com a metáfora do tempo cronológico que destrói aquilo que acabou de gerar, transformando ininterruptamente o presente em passado. O fim de Cronos seria o fim dos tempos? Coincidentemente Bashar al-Assad, em sua primeira entrevista a uma mídia ocidental após o início dos protestos, descreveu o cenário sírio como apocalíptico. Talvez seja o fim mesmo. Mas sob a perspectiva do próprio Saturno. O fim da ditadura da família Assad e o despoletar de uma outra era para o povo sírio. Mas tomara que não precisem de um outro deus autoritário para fazer este duplo trabalho hercúleo: destronar Saturno e reconstruir o país com os escombros que sobraram. A democracia agradeceria.

Referências:

GRIMMAL, Pierre. A mitologia grega. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1982.
WEISS, Michel; HASSAN, Hassan. Estado islâmico: desvendando o exército do terror. São Paulo: Seoman, 2015.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Estado Islâmico: do xeique dos chacinadores ao califado de Baghdadi II

Publicado ano passado, e já prontamente traduzido para o português, o livro Estado Islâmico: desvendando o exército do terror se tornou um dos principais trabalhos informativos de fôlego sobre o assunto no Brasil. Os atentados de novembro ocorridos em Paris tornaram o livro ainda mais procurado, sobretudo, por conta da escassez de obras no mercado. No post que se segue faço um breve resumo do eixo principal do trabalho cujo objetivo é responder à questão sobre o nascimento do Estado Islâmico e como este conseguiu causar tamanho estrago em tão pouco tempo. O livro é assinado por dois autores. Um é o analista político sírio Hassan Hassan, morador de Albu Kamal (ou al-Bukamal), cidade cujo aeroporto foi anteontem retirado das mãos do Estado Islâmico (EI) pela oposição síria apoiada pelos Estados Unidos (trata-se de uma cidade fronteiriça ao Iraque). E o outro é o jornalista americano Michael Weiss, que trabalhou na cidade síria de Aleppo, antes de ser tomada pelo EI. Ambos são funcionários do New York Times. A linguagem é jornalística. E neste sentido o trabalho privilegia descrições de fatos e redes de relacionamentos, bem como personagens, e deixa como coadjuvantes as interpretações mais densas, diferentemente de estudos acadêmicos. As principais fontes são entrevistas com ex-oficiais de contraterrorismo, diplomatas que rastrearam e enfrentaram o Estado Islâmico, dissidentes do grupo (uma valente professora de Raqqa, por exemplo) e agentes dormentes do EI no Ocidente.

Origem e expansão do Estado Islâmico

A pergunta da imprensa internacional – feita logo após o atentado contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo – a respeito de onde teria surgido o Estado Islâmico, pareceu estranha aos olhos dos autores. Afinal, se havia algo que ao menos o governo estadunidense conhecia bem desde sua invasão ao Iraque em 2003, era justamente o Estado Islâmico. Talvez sob outro nome. Mas lá estava ele. O Estado Islâmico não surgiu do nada, apenas se modificou, se aprimorou. Entre essas “fases” estão o Tawhid wal-Jihad, a al-Qaeda no Iraque (AQI) e o Conselho Shura Mujahidin. É isso. O Estado Islâmico nada mais é do que um grupo dentro da al-Qaeda, que em 2014 dela se emancipou. Sobre a al-Qaeda todos conhecemos. Foi a organização criada e liderada por Osama bin Laden, ele mesmo treinado pelos americanos da CIA para lutar e expulsar os soviéticos do Afeganistão, nos anos 80, durante a Guerra Fria.

O fato do líder da al-Qaeda ter se voltado contra seus apoiadores e mesmo financiadores, sendo o mentor do atentado do 11 de Setembro, é algo pouco complexo se comparado ao contexto de guerra civil na região. Não dá simplesmente para traçar uma linha e colocar xiitas de um lado e sunitas de outro. O imbróglio é bem mais intrincado. Há o problema sério do sectarismo religioso. Mas não se trata tão somente de uma disputa milenar sobre os sucessores do Profeta. A coisa também envolve um tipo de nacionalismo étnico, de regionalismo ou tribalismo e ideologias políticas. Temos curdos, alauitas, yazidis, assírios, turcomanos, cristãos, sunitas salafistas, baathistas, saddamistas... e por aí vai. Hoje são vários grupos lutando contra governos constituídos e entre si. Mas vamos ao prato principal, a gestação do Estado Islâmico (EI).

O surgimento do EI se dá através do entrecruzamento da trajetória de quatro homens: Abu Musabi al-Zarqawi (seu fundador), Osama bin Laden (fundador da al-Qaeda), Abdullah Yusuf Azzam (clérigo escritor do manifesto aos mujahidin) e Ayman al-Zawahiri (importante emir egípcio substituto de bin Laden). O perfil atual do grupo tem tudo a ver com o jordaniano Zarqawi [1966-2006]. Este era um jovem problemático, realizador de assaltos e outros crimes, tendo sido preso bem cedo. Para “consertá-lo” sua mãe o colocou num colégio religioso. E foi daí que se transformou num fundamentalista, resolvendo por fim ir lutar contra os soviéticos no Afeganistão com objetivo de expulsar os comunistas ateus da terra sagrada. Porém a verdade é que Zarqawi nem chegou a combater os soviéticos, ao chegar no local de batalha o Exército Vermelho já havia sido derrotado. Contudo foi nesta viagem que conheceu Zawahiri e bin Laden. Enquanto o pediatra egípcio Zawahiri [1951-ainda vivo] foi um dos precursores a misturar perigosamente salafismo e takfirismo (ou seja: um movimento ultraconservador que defende uma espécie de volta às origens do Islã e aplicação implacável da lei islâmica, a sharia; e a prática de denunciar muçulmanos de outros seguimentos como apóstatas), o segundo, o saudita Osama bin-Laden [1957-2011], tinha bastante grana e financiava as atividades pedagógicas de jornais e revistas do primeiro e também de Azzam [1941-1989], um teólogo palestino conhecido como pai da jihad global e morto por um carro bomba no fim da década de oitenta.

Devido a seus envolvimentos com atentados, Zarqawi foi preso em 1994 em Swaqa, em seu país, a Jordânia. A prisão foi um aprimoramento para seu fundamentalismo: o tornou brutal, focado e decisivo. Ele obteve poder e influência na cadeia. Aliás, já vale mencionar, as prisões no Oriente Médio são descritas como universidades do terror. Zarqawi conseguiu recrutar vários jihadistas e passou a ser considerado um “emir”. Quando o rei jordaniano Abdullah I promoveu anistia aos presos políticos ao estabelecer um acordo com a Irmandade Muçulmana (organização fundamentalista que existe pelo menos desde 1928), Zarqawi foi solto em 1999, sem cumprir integralmente sua pena. Logo fugiu para o Afeganistão e reencontrou bin Laden, que inicialmente não gostava dele, pois tratava-se de um sujeito extremamente prepotente, antixiita e intelectualmente pouco sofisticado para o líder saudita. De toda forma, o aceitou por questões pragmáticas. Zarqawi conhecia muita gente e tinha contatos essenciais no Levante. Bin Laden financiou Zarqawi para ser o comandante de um campo de treinamento no deserto do Afeganistão formando a célula Tawhid wal-Jihad (“Monoteísmo e Guerra Santa”). Foi ele quem formou os dois idealizadores dos ataques ao World Trade Center. Pelas práticas brutais empregadas, o intitularam “o xeique dos chacinadores”.

Assim que os Estados Unidos entraram em guerra no Afeganistão, em 2001, Zarqawi fugiu do país levando consigo uns 300 militantes em direção ao Irã. Por onde passava ia recrutando novos guerreiros. Seu objetivo era travar a jihad no Iraque, seguindo inspiração de um soberano do século 12, Nur al-Din, que governou Aleppo e Mosul e foi celebrado como herói da Segunda Cruzada. O governo do Irã estava interessado em controlar o Iraque e apoiou taticamente Zarqawi, mesmo sendo ele um antixiita – aspecto que ficaria explícito durante sua campanha em terras iraquianas, quando ele “notabilizou-se por seu foco em matar ou atormentar a maioria xiita da população do país; isto, ele acreditava, criaria um estado de guerra civil que forçaria os sunitas a recuperarem seu poder e prestígio perdidos em Bagdá e restaurarem a glória de Nur al-Din”, escrevem Weiss e Hassan (2015, p. 31). A estratégia de Zarqawi pode parecer estranha para nós, ocidentais, mas ela é muito típica destes conflitos, a ideia é fustigar uma reação violenta dos adversários para que os aliados adormecidos (no caso, o povo sunita) integrem exércitos para exterminá-los.

Zarqawi começou seus ataques no Iraque em 2003, inclusive matando um diplomata brasileiro (Sérgio Vieira de Mello) que trabalhava para a ONU. E seguiu matando “inimigos distantes” e também “inimigos próximos”, como o aiatolá xiita Baqir al-Hakin. Outra prática pioneira difundida por al-Zarqawi foram as decapitações televisionadas, sabendo da atenção que isso gerava no Ocidente. Conhecida como o inferno na terra para os soldados americanos, a cidade de Fallujah seria palco para a ascensão notória de Zarqawi. Na Primeira Batalha de Fallujah os drones americanos mataram apenas quatorze agentes da Tawhid wal-Jihad mas vários civis iraquianos, ou seja, a rede continuou praticamente intacta e agora aumentou sua força e seu apelo popular. Aproveitando-se disso Zarqawi transmitiu publicamente seu voto de lealdade (bayat) a Osama bin Laden e a organização mudou o nome para “al-Qaeda no Iraque”. Um ano depois disso, houve a Segunda Batalha de Fallujah, vitimando cerca de 2.200 insurgentes e 70 marines, outros 651 ficaram feridos. A cidade ficou totalmente destruída. Bin Laden responsabilizou o governo Bush pela matança, “os EUA estavam lançando uma guerra total contra o Islã”, afirmou. A al-Qaeda ganhou em propaganda, trazendo milhares para integrar seus exércitos. A armadilha havia sido cuidadosamente preparada. Poucos dias após esta batalha, a cidade de Mosul foi parar nas mãos dos zarqawistas.

Desaparecido desde a Segunda Batalha de Fallujah, Zarqawi estava escondido a apenas a 14km de uma base americana em Bagdá, quando, em 2006, foi morto por um drone. Seu fim não foi o fim da al-Qaeda no Iraque que, a esta altura, já era uma rede internacional gigantesca e rica. O Conselho Shura Mujahidin, órgão criado pelo próprio Zarqawi para dirigir a AQI, apontou o egípcio Abu Ayyub al-Masri [1968-2010] como novo emir da franquia. Masri declarou que “a franquia fazia parte de um mosaico de movimentos de resistência islâmica nativos, que ele denominou como Estado Islâmico do Iraque” (p. 68). Ao indicar as áreas de atuação, o emir escolheu o líder: o iraquiano Abu Omar al-Baghdadi [1959-2010], o primeiro al-Baghdadi. Esta dupla iniciou uma política ambígua em relação à al-Qaeda Matriz que desembocaria mais tarde numa cisão. Pouco se sabe do passado de Baghdadi I, era um homem tão discreto que muitos duvidavam de sua existência. Na realidade, ao que tudo indica, Masri usava o "rosto" dele apenas para dar legitimidade a seu comando, pois enquanto um era estrangeiro, outro era iraquiano. Acontece que os jovens mujahidins se inspiravam muito mais em Baghdadi (também por ele ter se declarado “Emir dos Crentes”) do que em Masri. Ambos foram mortos em 2010, escondidos no subsolo de uma mesma casa.

O substituto, escolhido pelo Conselho da AQI, foi Ibrahim Awwad al-Badari [1971-vivo], que adotou o nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi, ou seja, o segundo al-Baghdadi. Este sim mais conhecido. Foi membro da Irmandade Muçulmana na década de 80 e depois se tornou salafista, passando a defender também o takfirismo e o fratricídio contra os xiitas. Com ideias semelhantes a Zarqawi mas mais intelectualizado, Baghdadi II tem doutorado em assuntos islâmicos pela Universidade de Ciências Islâmicas de Bagdá. Ficou preso no Campo Bucca durante o ano de 2004 e inclusive atuou lá dentro como um imã aplicador da sharia. Este Campo Bucca é outra academia do jihadismo em forma de cadeia. Lugar onde os jihadistas conseguiam comida e proteção num contexto de guerra civil. E é também onde formam-se poderosas redes de contatos. O acordo SOFA em 2009 (sobre o status das forças americanas no Iraque) permitiu a soltura de inúmeros presos com o fechamento do presídio.

Após a morte de bin Laden, os homens de Baghdadi invadiram a Síria e tomam a cidade de Raqqa – chamada de o “Hotel da Revolução” por hospedar jihadistas estrangeiros com preço da expulsão da população local. Em 2013, o EI tenta se fundir à al-Nusra (a franquia da al-Qaeda na Síria) sob o nome de Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, é a sigla em inglês). Daí aparece uma desavença entre os líderes das duas franquias, que Zawahiri (o então sucessor de bin Laden) é obrigado a tentar conciliar. O chefe da al-Nusra, um sírio sunita chamado Abu al-Jawlani, nega a fusão com Estado Islâmico. Zawahiri critica ambos e explica a geografia em que cada grupo deveria atuar. Para resumir, um na Síria, outro no Iraque. Baghdadi II simplesmente não aceita. Diz que Zawahiri está seguindo fronteiras artificiais inventadas pelo ocidentais (ele se referia ao Acordo de Sykes-Picot, feito após a Primeira Guerra para dividir o Império Turco-Otomano e que criou, entre outros países, a Síria e o Iraque). Acusação grave. Inicia-se uma guerra civil dentro da guerra civil. Em fevereiro a al-Qaeda rompe relações com o Estado Islâmico. No meio do mesmo ano, Baghdadi II se autoproclama califa do Estado Islâmico. E neste posto está até hoje.

Em resumo

Como o Estado Islâmico conseguiu atingir este status? Ora, notou-se que o grupo não surgiu do nada, que existia sob outras formas, atuando dentro de uma organização maior e mais antiga, a al-Qaeda. Mas há outros fatores imprescindíveis para sua eficácia.

(1º) Governos corruptos e grupos terroristas se retroalimentam. Um precisa do outro. O Irã incentivou e equipou os zarqawistas para lutarem contra o governo baathista secular de Saddam, ainda que agora pareça empenhado a ajudar a combater o Estado Islâmico devido a seu caráter sectário antixiita. O governo de Saddam também ajudou a al-Qaeda no Iraque nas insurgências contra os americanos. Muitos ex-generais de Saddam ou saddamistas revoltados com xiitas no poder do Iraque integram hoje as fileiras do alto escalão do Estado Islâmico, especialmente, para combater o governo do primeiro ministro al-Maliki, sucessor de Saddam “colocado” pelos EUA (ficou no cargo de 2006 a 2014) e que libertou inúmeros prisioneiros. O governo sírio de Bashar al-Assad foi outro colaborador na época da Guerra do Iraque. Foi através da fronteira síria que Zarqawi conseguiu penetrar no Iraque. Al-Assad queria desviar a atenção para seu vizinho. Tendo sofrido um recente atentado em seu principal aeroporto, a Turquia é outro país que fez vista grossa para terroristas do EI a fim de derrubar Bashar al-Assad e obstruir os combatentes curdos. Mas os Estados Unidos também têm sua parcela de culpa. Sem falar da desagregação provocada no Iraque numa campanha desastrosa que só fez acirrar os ânimos e maximizar o sectarismo étnico-religioso, os EUA retiraram suas tropas da região deixando inúmeros armamentos (de metralhadoras a tanques de guerra) nas mãos dos insurgentes, simplesmente porque levá-los de volta seria oneroso. Além disso, interessados em derrubar al-Assad fizeram vista grossa para atuações do EI no início da guerra civil da Síria.

(2º) O Estado Islâmico conquista alguma legitimidade nas regiões em que ocupa ao fazer funcionar os serviços básicos da cidade, aplicando a lei aceita pela maioria e trazendo um mínimo de normalidade num contexto de atroz guerra civil.

(3º) Conta com uma propaganda potente. Usando do Twitter à Daqib, sua revista de divulgação. Mas também com uma propaganda indireta feita pelo sensacionalismo da mídia internacional. Inspirados por essas mensagens, muitos jovens muçulmanos que não têm onde cair mortos em seus países natais, como Bélgica e outros, viajam para uma aventura a fim de fazerem alguma coisa importante na vida, pensam.

(4º) Por último, e mais importante, o grupo atua como organização religiosa (lembrando aqui que religião e política não se separam nessa cosmovisão), sim, mas também como uma máfia. Detém o controle de postos de petróleo, de contrabando de armas e outros, cobram impostos, estimulam o mercado cinza, recebem doações de diversas partes do mundo e negociam com políticos corruptos, até mesmo com aqueles considerados inimigos “próximos” ou “distantes”.

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Quer ler mais sobre o assunto? No próximo post escrevo sobre a relação curiosa entre o regime de al-Assad e o Estado Islâmico. Clique aqui para ler.

Referências:

WEISS, Michel; HASSAN, Hassan. Estado islâmico: desvendando o exército do terror. Trad. Jorge Ritter. São Paulo: Seoman, 2015.

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domingo, 27 de março de 2016

Os fantasmas da América Latina: Quijano e "imagens da história"

"A conquista do México", por Diego Rivera
Com o acirramento da crise política no Brasil começou a circular uma série de memes na internet cujos conteúdos relacionam-se à história e a memória coletiva. Por mais que possa parecer banal, é interessante refletir sobre alguns destes pois nos permitem acessar e compreender determinadas “imagens da história” que habitam o imaginário social (portanto o consciente e o inconsciente) não somente de pessoas comuns, mas também e até mesmo de estudantes e pesquisadores de história.

São inúmeras estas imagens da (ou sobre a) história. Algumas, embora suficientemente problematizadas e inclusive combatidas pelas teorias e técnicas de um profissional da área, pelo menos num ambiente formal como a universidade, afloram em momentos de debate político quando o objetivo de (con)vencer o outro substitui os argumentos racionais e complexos pela eficácia, às vezes obtida pelas vias emocional ou moral. É o caso da “história-essência”, evocada, por exemplo, no debate sobre a raiz etimológica de uma palavra, que no presente possui um outro significado, para desqualificar a fala do interlocutor. Temos assim a interdição da palavra “mulato” para designar um indivíduo mestiço, já que sua raiz vem de “mula” e em seu emprego original pretendia conotar pejorativamente alguém como “não puro”, “híbrido”. Estranhamente as ressignificações não contam neste caso, mesmo que tenha ocorrido isso com termos como “vadia” e “anarquista” (todos originalmente pejorativos).

Outras duas destas “imagens da história” recorrentes são a “história-cíclica” e a “história-memória/história-exemplar”. A “história-cíclica” baseava-se numa das concepções de tempo dos gregos antigos, assim, os homens mudavam, mas os “eventos estruturais” se repetiam. Também por conta deste pensamento, a história poderia servir como “mestre da vida”, uma espécie de manual para se orientar e agir no presente/futuro. Lembrar torna-se um imperativo! Daí um dos significantes possíveis para “verdade”, na Antiguidade Clássica, ser a palavra aletheia, isto é, o não-esquecimento. O último dos historiadores reconhecidos a defender a concepção de história cíclica foi o britânico Arnold J. Toynbee [1889-1975], diga-se, em sua narrativa fundamentalmente apocalíptica de suicídio ou fim das civilizações. Já a “história-exemplar” gozou de boa reputação durante séculos até ser contestada a partir do século 18 principalmente por meio de métodos de pesquisa advindos da filologia, como informa Koselleck (2006). Hoje vemos estas “imagens” em voga quando as pessoas se preocupam com (ou usam como artifício retórico) a repetição do Golpe de 1964, que precedeu a ditadura militar no Brasil – inclusive lançando mão de comparações forçosas entre elementos do contexto socioeconômico e de lideranças políticas de hoje e de outrora. “A história é o poço inesgotável do qual a água do exemplo jorra, a fim de lavar suas mazelas”, é a máxima que melhor caracteriza este exercício.

Seria ingênuo dizer que os acontecimentos são únicos, não se repetem e que a futurologia é uma ciência destinada ao fracasso? Estaria sendo óbvio demais se afirmasse aqui que a história é um estudo sobre o passado e que sua narrativa somente pode ser construída após os fatos? Fatos que, parafraseando Edward H. Carr (1996), não estão como peixes em cima do balcão da peixaria. Por conseguinte só podem ser (re)constituídos pelos pesquisadores quando acesso tiverem às fontes, qualificadas conforme sua quantidade e diversidade, bem como de acordo com as questões e críticas que podemos a elas fazer. Dito o básico, importa perceber que teoricamente a noção que abrange as três “imagens da história” citadas no post está diametralmente oposta à concepção que melhor caracteriza a história moderna, aquela de movimento, de transformação e mudança. No caso da “história-essência” parece mesmo que nada muda, vivemos como escravos de um eterno passado, atados ao mito da origem. No caso da “história-cíclica”, embora os eventos se desenrolem, não há nada de novo. Também estamos presos. E, por fim, na imagem da “história-memória” como mestra da vida, o passado está mais presente do que o próprio presente, é um trauma que nos impede de seguir adiante devido ao medo da repetição da dor e do dano.

Dois dos memes que viralizaram nestes últimos dias também nos remetem a imagens de imobilidade da história. Ambos se referem ao processo da colonização portuguesa sobre o Brasil e sua associação aos problemas do país. Um deles (extraído de um twitter) indica o caráter de amaldiçoamento devido ao genocídio dos povos indígenas e, o outro (uma legenda sobre o quadro “Desembarque de Cabral em Porto Seguro em 1500”), está no âmbito do mito da origem, do passado que não passa, da inevitabilidade histórica como bloqueadora de futuros. Apresento-os abaixo:

  
Cada um a seu modo me fez lembrar de um texto que me marcou durante a graduação. Chama-se Os fantasmas da América Latina e foi escrito pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano [1928-]. Passo a escrever sobre este agora.

A colonialidade do poder

A partir do conceito de “colonialidade do poder” já utilizado em trabalhos anteriores, Quijano defende a tese segundo a qual a relação de des/encontro entre Europa e América Latina permitiu constituir um novo tipo de poder cujo efeito até hoje é exercido sobre o mundo inteiro. Em outras palavras, “a conquista” ou “o descobrimento” da América pelos europeus alterou profundamente a dinâmica e o diagrama de poder das civilizações que viviam cá nestas terras, na medida em que interrompeu suas experiências históricas plurais. Bem óbvio. Mas além disso a configuração do poder também foi alterada na Europa (a ponto da própria ideia de Europa Ocidental fundar-se a partir daí!) e estendendo-se para o resto do globo. Todos estão cientes de que, com o des/encontro, a América passou a ser dependente e a Europa a possuir o controle. Porém a história baseada num ponto de vista eurocêntrico distorce a função da América Latina neste processo em que realidades históricas como “modernidade”, “globalidade” e “capitalismo mundial” foram produzidas – obviamente a contragosto ou em detrimento dos chamados latino-americanos mas sem os quais estas não teriam existido, segundo o sociólogo.

Desde então a América Latina é vista como “atrasada” por não ter desenvolvido as potencialidades atribuídas a algo essencialmente moderno. Tendo como pressuposto teórico a concepção de que as civilizações possuem sentidos históricos distintos, a análise de Quijano adverte que nosso “fracasso” se dá por duas razões: (1ª) nos foi imposta, eu diria “vendida”, a ideia de que somos iguais aos europeus ou que deveríamos seguir a trilha da evolução unilinear e homogênea por eles traçada, isto é, seguir seu modelo de sociedade para finalmente obtermos o sucesso; (2ª) o modo como foi produzida a versão da história hegemônica distorce a experiência histórica-social dos latino-americanos, impossibilitando-os de enxergar os fantasmas de seu passado e, mais do que isso, fazendo com que se vejam como inferiores em sua natureza material e cultural e não como vítimas de um conflito de poder. Seria necessário então convocar e lidar com nossos fantasmas para resolver os problemas que nos assolam.

Feito o resumo do texto nos dois parágrafos anteriores, passo a esmiuçar passagens que considero importantes. Quijano aborda a pedra fundacional do nosso continente desvelando como outros o seguinte: a produção histórica da América Latina foi a destruição de um mundo histórico e isso precisa ser levado em conta quando pretendemos produzir o sentido de nossa história. Para que o atual espaço social que vivemos pudesse ser o que é hoje, a América Latina, uma trituradora de culturas desintegrou padrões de poder e de civilização, exterminou em curto prazo mais da metade da população vivente (em torno de 50 milhões), eliminou não apenas portadores mas produtores de experiências daqueles povos: dirigentes, intelectuais, engenheiros, cientistas, artistas foram literalmente soterrados. A repressão material e subjetiva aos sobreviventes ao longo de séculos foi tamanha que os transformaram em camponeses iletrados, então explorados pelo processo europeu.

Ao novo padrão de poder produzido, a ideia de “raça” serviu como um elemento fundamental para seu funcionamento. Esta é a parte sofisticada da colonização, aquela em que a dominação necessita de sutilezas. A “raça” neste sentido tornou-se um modo de naturalização das novas relações de poder impostas aos sobreviventes daquele mundo em destruição. Como uma máquina de destruição de subjetividades, a toda a população sobrevivente foi imposta a identidade “índios” – a despeito da pluralidade existente. Ao contrário do que se pensa, não foram os “negros” as primeiras vítimas da racialização, mas os “índios”; para separá-los do “ibéricos” e ao mesmo tempo construir uma matriz homogênea de classificação em escala global [clique para ler a citação]. Isto mesmo. Pois em torno da ideia de raça foram se redefinindo e configurando outras instâncias de dominação já anteriores, como a de gênero. Desta maneira o primeiro sistema de classificação social global da história (“branco”, “índio”, “negro”, “mestiço”, etc.) foi produzido na América e imposto ao restante do planeta, assim como a nova nomenclatura geográfica do poder. Ademais, produziu-se também através da América Latina um novo sistema de exploração social: o controle do trabalho, de seus recursos e produtos direcionados a um mercado global, fazendo emergir o capitalismo mundial. Neste ponto há uma íntima relação entre colonialidade e globalidade. Ninguém em nenhum lugar do mundo poderia estar fora. Talvez mudar sua posição dentro do sistema, mas não ficar exterior.

A posição de superioridade da Europa é conquistada, de acordo com o sociólogo, devido à exploração desta sobre a América Latina, integrando, por seu turno, capital e modernidade. “O domínio colonial da América, exercido pela violência física e simbólica, permitiu que os conquistadores/colonizadores controlassem a produção dos minerais preciosos (ouro e sobretudo prata) e dos vegetais preciosos (no início principalmente tabaco, cacau e batata), por meio do trabalho não-remunerado de escravos ‘negros’ e de criados ou peões ‘índios’ e de seus respectivos ‘mestiços’”, escreve Quijano (2006, p. 70). Até a Revolução Industrial não se produzia na Europa ocidental nada com significativa importância para o mercado mundial, foi graças portanto ao processo de controle sobre a colônia e de exploração sobre o trabalho de “índios” e “negros” que esta conquistou uma posição destacada, como também concentrou benefícios comerciais e juntamente com eles manteve em seus países a mercantilização da força de trabalho local.

Conforme a narrativa de Quijano, por conta do aumento de poder da Europa ocidental e do processo de aburguesamento da sociedade, como viu-se em Espanha pelo menos a partir da expulsão de judeus e muçulmanos (para o autor a primeira “limpeza étnica” moderna), houve uma intensa disputa de poder entre os conquistadores (por espaço, corações e mentes) até mesmo contra a Igreja, mas também contra culturas locais-nacionais. Daí resultou, como estratégia de luta, a auto-identificação da Europa Norte-Central como “moderna”, representando aquilo que seria de mais avançado e novo na civilização humana. Este fato implicou que a Europa seria para a América o centro de desenvolvimento de capital e de modernidade/racionalidade, o verdadeiro modelo histórico a ser seguido. Isto é, além de poder, uma colonialidade do saber, de onde advém a principal perspectiva de produção do conhecimento. Esta está, por sua vez, em desencontro com nossa experiência histórica. Por quê? Ora, porque enquanto aqui até mil e quinhentos tínhamos uma co-presença de tempos históricos e formas heterogêneas de existência social de procedência histórica e geográfica distintas, a visão eurocêntrica de progresso ligada à modernidade e ao capitalismo, tem mais a ver com um radical dualismo (de civilização e barbárie) que se compõe de homogeneidade, continuidade, evolução unilinear e unidirecional.

Então passemos logo a identificar os fantasmas da história da América Latina: Identidade, Modernidade, Desenvolvimento, Democracia e Unidade. Estes seriam portanto elementos do poder e do saber impostos pelo lado mais potente da colonização e abraçados pelos latino-americanos para seu próprio infortúnio. Para que possamos andar com as próprias pernas precisaríamos deles nos livrar. E Quijano já verifica há algum tempo conflitos em torno dos mesmos e novos rearranjos. Primeiro, nas lutas antirracismo e o intercâmbio entre “cor” e “raça”. Em segundo, a tomada de consciência de que “modernização” quis significar nada mais do que “ocidentalização”, numa chave de leitura em que indígenas e africanos foram vistos como pré-modernos ou primitivos. Terceiro, a resistência dos sobreviventes ao defenderem o legado aborígene. Em quarto, o atrito relacional entre as várias versões do europeu: latinicidade, pragmatismo, espiritualismo, etc. E em quinto e último, movimentos indígenas e afro-latino-americanos colocando em questão a versão europeia de modernidade e de racionalidade para afirmarem suas próprias, bem como apresentando valores civilizacionais (por ex., reciprocidade, ética da solidariedade, etc.) enquanto alternativas a tendências predatórias do capitalismo atual.

Pitacos safados

A associação que fiz entre os memes de imobilidade histórica e o texto de Aníbal Quijano tratou-se de uma armadilha da memória (a minha mesmo). A impressão que havia ficado depois da leitura realizada lá pelos idos de 2009 foi a de que o texto de Quijano era extremamente pessimista e possuía uma “imagem da história” tão fatalista quanto os memes a respeito da colonização europeia. Mas me enganei ao relê-lo. O que há de comum entre as “imagens da história” apresentadas por ambos (memes e texto) é talvez o diagnóstico de que nossos problemas estão inextrincavelmente relacionados ao processo de colonização. Porém, enquanto subentende-se que os memes não apontam saídas a não ser aquela de devolver a terra para os “índios” e pedir desculpas (perspectiva que aliás nos coloca como “europeus”), Quijano dá pistas para nos livrarmos do embaraço das estruturas mentais (se quiserem, culturais) desenvolvidas e disseminadas pela colonialidade do poder.

A despeito de sua sofisticação teórica, penso que o ponto fraco do texto seja o de construir uma espécie de latino-americanocentrismo para digladiar com a perspectiva eurocêntrica da história. Quer dizer, não há dúvidas de que a conquista da América Latina e suas relações com a Europa contribuíram para constituir realidades históricas até hoje vivenciadas por todos, além de garantir a posição de soberania europeia por tanto tempo; porém, em alguns momentos, torna-se forçosa a apresentação de algum tipo de modernidade e de capitalismo como condições socioeconômicas irrealizáveis sem a América Latina (diga-se, sua exploração e as implicações disso). O enfoque nos chamados fantasmas históricos (desenvolvimento, unidade, identidade, modernidade e democracia) mostrando-os como vícios do capitalismo, inclusive de governos socialistas, é brilhante. Mas, por outro lado, perde a mão quando olha para um passado remoto buscando sepultar de vez tais fantasmas ao apresentar (como saídas?) os modos de vida e de pensamento das civilizações que aqui viviam quando chegaram os europeus. São mundos históricos infelizmente soterrados para sempre. É típico dos estudos pós-coloniais este tipo de perspectiva. Possui suas razões políticas e são legítimas. E neste sentido uma coisa esta área pode ensinar aos produtores de memes: a história é uma narrativa. Ninguém vai mudar o fato de que os europeus chegaram aqui por volta de 1500, nem que uma série de conflitos foi desencadeada depois disso. Entretanto a perspectiva para compreender estes eventos está aberta. Dentro desta margem de liberdade, os tipos de “imagens da história” que escolhermos construir vão nos fazer olhar para o futuro ou nos prendermos ao passado. O que queremos?

Referências:

CARR, Edward H. O que é história? São Paulo: Paz e Terra, 1996.
KOSELLECK, Reinhart. Historia magistra vitae – sobre a dissolução do topos na história moderna em movimento. In:______. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. São Paulo: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006, p. 41-60.
QUIJANO, Aníbal. Os fantasmas da América Latina. In: NOVAES, Adauto (org.). Oito visões da América Latina. São Paulo: SENAC, 2006, p. 49-85.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Realismo do nada e o fim da política: niilismo atual segundo Rancière

“Irmãos, a terra onde ancoramos não é a Terra Prometida onde devem se realizar as maravilhas de Icária; nossos modestos trabalhos nem mesmo representam seu esboço e, contudo, Icária existe. A Icária orgânica com seu regime comunitário, o sistema de igualdade, a ordem, a harmonia, a poderosa concentração de forças e de aptidões de cada um concorrendo para a felicidade de todos; ela existe finalmente, com sua incessante tensão para o progresso material, intelectual e moral pelo trabalho, o estudo e a prática da Fraternidade”.

Antecipação de Icária por Prosper Bourg, joalheiro, poeta e cantor. In: Le Populaire, 4 nov. 1849 (apud RANCIÈRE, 1988, p. 354).

Utopia: fundando Icária

Em meados do século 19, em plena efervescência do movimento socialista no mundo, um grupo de operários franceses viaja para a América a fim de fundar Icária. Icária é um lugar num livro, Voyage en Icarie [1840], do escritor Etienne Cabet. Antes de perceberem a dessemelhança entre o matagal que lá encontram no fundo do Texas e a descrição paradisíaca do livro, eles dizem “Icária existe pois está em nossos corações”. Desde então os homens de ciência e os partidários de um socialismo científico zombam destes sonhadores. Mas aqueles que zombaram, hoje zombados são. “Ah, esses ingênuos”. Não há socialismo que resista a um século e meio de história, camarada. Há o socialismo real, mas este está longe do “utópico” projetado, por exemplo, pelos cientistas do marxismo. Oito anos após A noite dos proletários [1981], Rancière reflete sobre Icária num texto em que relaciona política e historiografia ao niilismo contemporâneo: à sanha daqueles cuja teoria é assinalar o fim e o desaparecimento de algo que, segundo os mesmos, nunca começou ou apareceu. Neste post escrevo sobre o enunciado do fim da política.

A familiaridade do enunciado niilista do fim da política e da lógica discursiva da real política (Realpolitik) não é mero acaso. Ambas estão prontas para decidir que não há nenhuma decisão a ser tomada. O mercado já decidiu antes: questão pragmática. Temos que adequar a administração das coisas às demandas da esfera econômica, dizem. Há uma necessidade que não pode ser ignorada, asseveram. A política é substituída pela economia. Como queriam os liberais. Como queriam/previam os comunistas da ciência de Marx e Engels. A despeito da comemoração vitoriosa da democracia representativa do mundo capitalista sobre o totalitarismo (leia-se aqui bolchevismo soviético), o Ocidente tomou para si o princípio do inimigo outrora derrotado. Impondo à coesão social a necessidade do desenvolvimento das forças produtivas ou, em outras palavras, dizendo ser preciso primeiro fazer crescer o bolo para depois reparti-lo. “Sob o termo consenso a democracia é concebida como o regime último da necessidade econômica. Um certo marxismo tornou-se assim a legitimação última da ‘democracia liberal’”, aponta Rancière (1996, p. 367).

Viajemos à Grécia antiga. A decisão que antecede à possibilidade do litígio político e de sua operação essencial, isto é, a anarquia, dissipa a política em seu sentido mais latente senão caracterizador. Se, como escreve Platão, Sócrates é o único ateniense a fazer política, aquele que faz “política de verdade”. Então a política grega, obviamente alheia de Sócrates, é para Platão um mau começo, um começo sem arkhé (o princípio que governa). Esta an-arkhé da política leva dois nomes bem conhecidos: demos e democracia. O primeiro de uma unidade que não é una. O segundo de um exercício da política que não é o funcionamento de nenhuma arkhé. Platão resume estas à insensata decisão da assembleia que agrada ao povo. A boa política ou a política verdadeira seria aquela cuja ação faz a comunidade basear-se em sua própria medida: o consenso. Em outros termos, o fim da má política é o fim de toda a política. Já Aristóteles, não. Este não quer exterminar a má política porém regulá-la. Quer que o povo veja e reconheça seu poder, aceite a distribuição e não coloque o litígio. Deste modo, aristotelicamente a “melhor democracia” será aquela em que o demos for menos capaz de coincidir com ele mesmo na assembleia. É o mesmo regime em que o povo está ocupado demais com seus afazeres para participar de alguma decisão nessas câmaras do poder público (RANCIÈRE, 1995, p. 231).

Para Rancière, a política é paradoxal. O fim da política é a regulação contínua de seu duplo nascimento. (1º) Há política porque há demos, o dispositivo de uma esfera de aparência do povo, de uma conta ímpar que faz valer a maioria pelo todo e os pobres pela comunidade e de um litígio ligado ao nome do povo. (2º) E há política – uma arte e uma ciência, talvez até uma filosofia política – porque há o pensamento e uma vontade de verdade, de uma medida e de uma unidade da comunidade que substituem a anarquia democrática. O paradoxo da política é portanto a inclusão de seu fim.  

Tal paradoxo é a condição que a mantém viva. Sua morte ou seu fim é a contraposição de sua aparência com sua verdade científica. A metapolítica vem ceifar a política quando denuncia o desvio do povo de si mesmo como sinal de sua não-verdade. Haja vista que o povo nunca coincide com a arkhé da comunidade, há duas maneiras de praticar esta anomalia: a política democrática e a metapolítica científica. Enquanto a política democrática sabe desta dinâmica e a usa para jogar, para mostrar o desvio e o dano, exigindo uma reparação qualquer (reivindicação); a outra, a metapolítica científica, usa este desvio como o segredo que seu saber vem descobrir e com isso se impor, arbitrando e dando fim ao jogo.

Isto é, a política democrática trata a diferença do povo a si mesmo através do litígio. Não há exatamente uma necessidade de ensinar ao interlocutor a diferença entre o fato e o direito, o formal e o real, o cidadão ideal e o homem rico ou miserável. Estas coisas são tratadas sob sua redoma (a política). Por outro lado, a metapolítica-social científica, cuja versão mais acabada é o marxismo, apesar de também possuir lugar na diferença do povo consigo mesmo, interpõe tal diferença como segredo. Segredo este que, de certa forma, a política democrática faz vistas grossas para continuar jogando. A metapolítica científica põe um verdadeiro povo como verdade oculta do povo aparente e se institui, ela mesma, como o saber dessa verdade oculta. A partir do sintoma entre o real e uma aparência, o real precisa operar a supressão da aparência. Ou seja, o sintoma desta não-verdade, é a diferença do povo soberano consigo mesmo.  

O litígio como sintoma ou sintoma como litígio? Enfim, esses contrários se juntam na era revolucionária: tanto o movimento operário e social quanto o socialismo foram feitos com estes dois procedimentos. Por um lado, a política democrática interpreta a diferença no sentido da ação que dá presença a um texto; por outro, a metapolítica científica interpreta como sintoma essa interpretação teatral. “A conjunção abarca uma representação do tempo: um tempo orientado, em ambos os casos, pela realização imanente de seu fim, seja este o cumprimento da promessa democrática ou o desencanto de seu devaneio, o telos visado pelo tratamento democrático da diferença ou do fim da utopia. E o conceito moderno de História é o conceito da unidade dos dois, de um movimento e de uma ciência”, escreve Rancière (1995, p. 235).

Existem pelo menos duas versões deste tema do fim. A primeira é a hegeliana-escoteira, representada da melhor forma por Francis Fukuyama. Nela o fim aparece como triunfo planetário da democracia, capaz de prover comida para todos e também de satisfazer o desejo de reconhecimento com o qual o todo se identifica. E a segunda é a versão realista do fim do século 20. Esta, em vez da realização do fim (de maneira objetiva), apresenta a ausência de todo fim, de todo e qualquer telos da História, o fim das políticas de telos e de suas promessas. Este nada mais era, segundo tal versão, do que uma aparência cuja existência veio suprimir em algum momento a própria aparência, uma mentira que veio desvelar a mentira e levar a política a sua verdade. O exemplo principal está em François Furet, cuja obra sobre a Revolução Francesa nos dá a notícia de que tudo tratou-se de uma ilusão. A ilusão que nos fez pensar esta revolução como o começo de um tempo. Porém se este tempo estava destinado a professar a verdade da revolução, esta verdade é sua ausência ou, melhor dizendo, sua inexistência. “A democracia excepcional hoje teria esgotado o ciclo de seus mitos e voltaria a encontrar o comum da democracia, a democracia normal ilustrada pela tradição anglo-americana” (RANCIÈRE, 1995, p. 235).

Assim, a democracia normal seria a real, na medida em que o povo não tem mais aparência de povo. Não tem litígio. Caímos na era do realismo: na qual as aparências não se voltam a mais nenhum outrem para serem suprimidas. “Anulação da não-verdade que não entrega mais verdade”. Por fim, o fim das ilusões de esquerda. Mais do que isto, a repetição do cenário em que cada força faz o contrário daquilo que pensa fazer, como ficou consagrado no 18 Brumário de Luis Bonaparte de Marx.

“A lógica marxiana do hieróglifo, que chama outra leitura do sentido e da história, tornou-se a prova por ausentamento do sentido. O realismo se gaba de ter suprimido as existências inexistentes, proclama o reino das coisas sob as palavras, sem as palavras. Mas as coisas sem as palavras são o inominável ou o impredicável, o visível exibido em toda parte que não entrega mais nenhum sentido senão o do fim. A retirada das palavras revela-se a retirada das coisas. Exibido em toda parte, o visível deixa com isso de valer como prova ou objeto de julgamento, como poderia ilustrar o estranho argumento do advogado dos policiais espancadores de Los Angeles diante do filme acabrunhador de uma testemunha do acontecimento: o filme, afirmaram eles, exprimia a realidade tal como a testemunha a percebera. Não exprimia o real dos policiais empenhados na ação” (RANCIÈRE, 1995, p. 237).

O realismo é a supressão do jogo da aparência e do real. Nesta casa onde a política se entrelaçava com seu fim. O que se opõe a este jogo é a submissão do real a categoria do possível. Política do possível: o realismo da ultra-política. O realismo não é o partido do real, mas do possível. Ele proclama a caça às entidades inexistentes, aos mitos e às utopias. Mas o que ele quer é o próprio real conforme a factualidade do “já existe” e o fim do acontecimento. A subtração das novidades cujo resultado é zero. O nada.



Referências:

RANCIÈRE, Jacques. A noite dos proletários: arquivos do sonho operário. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
RANCIÈRE, Jacques. O dissenso. In: NOVAES, Adauto (org.). A crise da razão. São Paulo: Companhia das Letras/ Brasília: Ministério da Cultura/ Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, p. 367-383.
RANCIÈRE, Jacques. Enunciados do fim e do nada. In: Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
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