quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O leilão das esposas: E. P. Thompson investiga os costumes ingleses

No livro Costumes em Comum, o historiador Edward Palmer Thompson descreve e analisa algumas práticas sociais peculiares na cultura dos trabalhadores ingleses nos séculos 18 e 19. Alguns desses “costumes” eram de criação recente e representavam as reivindicações de novos “direitos”. Essa pesquisa histórica contraria boa parte dos especialistas que acreditam que no século 18 os costumes populares estavam em declínio devido uma pressão por modernização que vinha de cima para baixo. A abordagem marxista de Thompson privilegia a perspectiva que enxerga os conflitos de classe em torno dos costumes. As pessoas comuns se recusavam, por exemplo, em algumas situações, a adotarem rituais cívicos que não foram criados por eles, a obedecerem rigorosamente à lei oficial se ela não fosse baseada nos usos e costumes antigos. Passo agora a resenhar o capítulo “A venda das esposas” que pontua com exemplaridade a pesquisa dos costumes populares empreendida por Thompson.

Até pouco tempo atrás a memória histórica da venda das esposas sofria de amnésia. Afinal, por que dar atenção para um costume que ataca o sagrado matrimônio cristão? Pior ainda se ele não vem dos países abaixo da linha do equador (onde não existe pecado). No século 19, o evento era categorizado pelos jornais e pesquisas científicas como barbárie e atraso das comunidades rurais, ou, no caso dos folcloristas, diziam que eram resquícios da cultura pagã. Claro, pois na cultura cristã não existem hábitos e rituais esdrúxulos! Não, não. Ninguém, por exemplo, fica ajoelhado, de olhos fechados, segurando um colar e emitindo sons estranhos embaixo de uma imagem ou escultura feita de madeira ou de pedra. Na cultura ocidental ninguém perde seu precioso tempo em frente a um tubo que emite imagens com movimento ilusório e às vezes chora ou nem dorme a noite de tanta aflição, mesmo sabendo que tudo não passa de uma mentira. Ironias a parte, a atribuição do costume da venda das esposas às comunidades rurais ou à cultura pagã era um recurso usado para afirmar a superioridade da civilização na Inglaterra. Porém, os franceses não perdiam tempo e faziam chacota com o costume dos ingleses: “John Bull era representado, de botas e esporas, no mercado de Smithfield, gritando ‘minha mulher por quinze libras’, enquanto a senhora, presa por uma corda, se mantinha de pé num pequeno cercado’” (THOMPSON, 1998, p. 305).

Nos romances literários que expuseram essa prática social era reafirmada a opinião de que a mulher era tratada como um artigo, uma mercadoria, no máximo como um cavalo de um cigano negociador (pleonasmo). Tanto na literatura, quanto nos jornais e pesquisas, a venda era entendida ou porque o marido queria ver-se livre da mulher ou porque ele queria dinheiro. Thompson adverte que esse tipo de opinião desautoriza o exame sério e a capacidade de compreensão do simbolismo desse ritual para além da opressão feminina ou da leviandade dos pobres em relação ao casamento. O autor defende que a prática deve ser vista como “o divórcio popular britânico”.

Antes de entendermos por que Thompson compreende a prática desta maneira vamos aos detalhes da pesquisa. O historiador recolheu cerca de 300 casos noticiados pelos jornais The Times e Notes and Queries, e por folcloristas, num recorte temporal que vai de 1760 a 1880. Essa quantidade é imprecisa, pois para que estes eventos fossem relatados pelo folclorista alguma curiosidade lhe chamara atenção. Além disso, o assunto só se tornou tema de reportagem e comentários freqüentes no início do século 19. Isso não quer dizer que ele não acontecia antes, mas é uma evidência da mudança na consciência social e nos padrões morais demonstrado pelo valor das notícias. Esse aspecto em si é mais importante que as quantificações. Thompson argumenta que a distância entre as classes sociais ou a indiferença de um costume corriqueiro são hipóteses que poderiam explicar o porquê dos acontecimentos não serem registrados anteriormente. A partir do século 19, a desaprovação moral e o escândalo público, a comparação com a venda de escravos na África e a vergonha para a civilização deram o tom dos comentários que denotam uma transformação cultural na sociedade operada pelo crescimento evangélico. Crescem ações de magistrados, policiais, funcionários do mercado e moralistas contra a venda das esposas. A publicidade acabou expulsando aos poucos a prática das praças de mercado, mas isso não significa que tenha suprimido-a. O costume só terminou quando foi desaprovado dentro da própria cultura popular, muito em função das fontes evangélicas, racionalistas, radicais e sindicais.

E. P. Thompson, 1924-1993
A venda das esposas era um costume praticado entre as classes populares, que Thompson acredita ter sido, inventado no final do século 17. Embora seja possível a existência de práticas sociais parecidas em outras regiões e temporalidades, um determinado padrão do ritual só pode ser visto nesse período. Devido às condições materiais da coleta dos documentos mediada pela imprensa ou folcloristas, esse padrão não pode ser entendido como representativo do todo (sendo necessária, para esclarecimento exato, a análise de caso a caso se quisesse compreender as motivações particulares de cada um), contudo ele é desenvolvido através de uma perspectiva de antropologia cultural que considera o fator histórico de mudança no tempo. Esse padrão pode ser divido em dois.

No primeiro modelo, o marido ia até a praça do mercado da vila para tornar público o acontecimento. Exemplo de anúncio: “AVISO: Este é para informar ao público que James Cole está disposto a vender sua mulher em leilão. Ela é uma mulher decente e limpa, com 25 anos. A venda deve ocorrer em New Inn, na próxima quinta-feira, às sete horas”. A esposa era conduzida até a praça do mercado com uma corda amarrada no pescoço ou na cintura. Alguém narrava o leilão, na maior parte das vezes o próprio marido que, por sua vez, segurava a corda que atava a mulher. No segundo modelo, era feito um contrato prévio, e o ritual de “entrega” da esposa ocorria em um bar diante de testemunhas que validavam o ato. Acredita-se que a segunda maneira se tornou mais recorrente após começarem a perseguição contra a venda das esposas na praça do mercado, considerada a verdadeira forma ritual.

Existem alguns aspectos que marcam quase todos os casos da venda de esposas. A) consentimento das três partes: marido, esposa e comprador. Geralmente a mulher entrava em acordo com o marido sobre a venda antes dela se efetivar, caso isso não acontecesse o evento em praça pública possibilitava ela de recusar a sua venda e mesmo o comprador. Nos documentos existem registros dessa situação em que a esposa mesmo tendo sido vendida não aceitou o novo marido, a “negociação” foi cancelada e ela voltou a morar com os pais. B) o ritual sempre exigia dinheiro, que na maioria dos casos era uma pequena quantia (um xelim ou menos era a média). O comprador comumente pagava litros de cerveja ou de ponche ao marido e devolvia-lhe uma fração de grana, chamado “dinheiro da sorte”. Em alguns casos o marido dava presentes ao novo casal, como a parte de um carneiro ou até uma carruagem. Houve um caso extremo em que o cara vendeu sua mulher por um copo de cerveja. Ao que tudo indica, ela adorou o novo marido e saiu insultando o antigo. C) a venda devia ocorrer num local de comércio conhecido aos olhos da comunidade. Ali, o marido podia expressar os motivos pelos quais estava vendendo a mulher ou ressaltar qualidades dela para atrair um comprador. D) a presença da corda era essencial para legitimar o fato. O momento de entrega real da corda às vezes era solenizado pela troca de juramentos análogos como numa cerimônia de casamento. Dependendo do clima e da boa vontade, a cerimônia podia se estender depois da troca. Os três, acompanhados de testemunhas, podiam ir a taverna assinar documentos (como certidões de casamento) e beber juntos.

Thompson salienta que apesar da situação acontecer num mercado de gado, o ritual não deve ser compreendido desta maneira, porém como um divórcio popular seguido de casamento. Caso contrário não haveria a necessidade do simbolismo em praça pública e do consentimento dos três. Algumas evidências apontam que boa parte das vendas das esposas eram apenas a formalização de uma situação já vivenciada, na qual a mulher tinha um amante (ocorrência freqüente) ou até mesmo morava na casa de outro homem (fato raro). Neste sentido, o leilão podia ser somente uma simulação na qual quem aparecia para comprar a esposa era seu amante – tudo já estava combinado previamente. O marido podia expor sua situação ao público inclusive com comicidade a si mesmo dizendo: “bem, vocês estão cansados de saber que não tem mais jeito, então...” Ou praguejando a mulher por seus defeitos – como um cara que dissera que venderia sua mulher por ela ter uma língua afiada e lhe incomodar o dia todo. Numa sociedade que não aceitava o adultério, o público reagia de diferentes maneiras. Vaiando a esposa ou o marido, aplaudindo o ato, protegendo o acontecimento quando autoridades intervinham. Contudo, sem dúvida tanto marido como esposa expunha publicamente sua humilhação frente às pessoas. O que reforça o argumento de Thompson que não se tratava de um comércio da maneira como entendemos hoje.

Câmara dos Lordes, atualmente
Por que essa prática acontecia? Thompson crê que seja por causa do colapso do casamento na sociedade moderna. Por sua vez, não existia divórcio para o povo inglês ou galês. Quando aconteciam era à surdina, só que a tradição consuetudinária da Inglaterra fazia com o novo casal se sentisse envergonhado aos olhos de parentes e vizinhos. Por ora, Thompson elenca os pontos necessários para que houvesse possibilidade da venda das esposas: “o declínio da vigilância punitiva da Igreja e seus tribunais sobre conduta sexual; o consentimento da comunidade e uma certa autonomia da cultura plebéia em relação a culta; uma autoridade civil distanciada, desatenta ou tolerante” (THOMPSON, 1998, p. 334). Tais condições históricas existiam no século 17, onde o costume fincou raízes. Não havia uma maneira de fazer isso conforme a lei oficial da Inglaterra? Sim, recorrendo à Câmara dos Lordes e pagando uma quantia muito alta. Coisa que a classe popular pouco sabia a respeito, tampouco dispunha de dinheiro para tal. Aqui o choque entre as duas culturas, da elite e popular, se evidencia. Os pobres reconheciam os costumes e a opinião da comunidade mais do que um documento protocolado por autoridades.

No final do capítulo Thompson escreve com tom pesaroso sobre a recepção de sua pesquisa pelas feministas. Inclusive recebendo intimidações em determinados eventos. Ele diz que é um preço justo a se pagar por um momento de efervescência da pesquisa sobre a história das mulheres, manifestando que não nega além da opressão de classe, a opressão de gênero. Entretanto, deixa claro que não quis reduzir a venda das esposas simplesmente a opressão masculina numa sociedade patriarcal. O autor desconfia do estereótipo construído em determinadas pesquisas que analisam as mulheres como vítimas e sujeitos passivos da história. Pois, mesmo que isso tenha um tom de verdade, a demonstração do consentimento das esposas (às vezes sugerindo sua venda na tentativa de fugir de um casamento fracassado, de encontrar um parceiro melhor ou simplesmente se ver livre do marido – como quando a compra era realizada pela própria família da esposa) confirma que esse estereótipo não se encaixava em sua pesquisa.

Referências:

THOMPSON, E. P. A venda das esposas. In:______. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 305-352.
THOMPSON, E. P. Introdução: costume e cultura. In:______. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 13-24.

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto e do modo como foi escrito. A venda ou leilão das esposas era um ato que ia além do mero machismo opressor, se alguns assim entendem. Gostei das abordagens amplas, onde foi analisado os acontecimentos em torno desse ato, como as que fizeram menção à cultura popular, ao envolvimento da mídia, da notícia, do moralismo "falso"... A análise não se prendeu somente ao ato opressor... E história é isso...é buscar analisar não só o acontecimento, mas o que gira em torno, desconstruir as visões únicas...

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